Até Bill Gates já disse: “Meus filhos terão computadores, mas primeiro terão livros...” Todo mundo sabe da importância da leitura – e das boas leituras – para a formação intelectual de uma criança. Ler desenvolve o poder de raciocínio, apura a capacidade de interpretação. Quem lê bastante assimila as estruturas lingüísticas de nossa Língua e escreve bem, mesmo que não seja um perito em Gramática. Mas a questão é: o que oferecer ao jovem para garantir que ele saiba, um dia, traçar seus caminhos “literários” sozinho e em qual momento?
Antes era fácil cativar um jovem com uma história. Hoje, a melhor história escrita perde para qualquer game. Não é fácil competir com as cores, o movimento e a interação que o mundo da diversão virtual proporciona. Então os pais vêm à escola, aflitos, porque seus filhos não querem ler. Não querem ler, vírgula. Zelosamente, os pais lamentam que os filhos não leiam aqueles clássicos que nós lemos no nosso antigo colégio e, por isso, receiam que seus filhos não tenham uma boa formação literária.
Calma. Há tempo para tudo. A experiência conta – ou mostra – que obrigar o adolescente a ler obras cujos conteúdos estão bastante distantes dos seus interesses imediatos é perder um leitor para sempre. Ele lerá tudo o que sua professora obrigar e, quando puser seus pés fora da escola... “Ufa, estou livre, não preciso mais ler!”
Não que oferecer os clássicos seja um erro, mas é preciso ir com cautela. Parafraseando Ana Maria Machado, “ninguém está negando a importância de tais obras, mas não são o tipo de leitura ideal para aquele ‘primeiro namoro’ do leitor com a literatura.”
Que tal começar com a deliciosa linguagem cotidiana de um Veríssimo, ou um bom conto de Lia Luft? Bem, nem dá para ser justo, sem citar aqui algumas folhas de excelentes nomes da literatura contemporânea. O professor faz um trabalho de garimpo neste vasto campo literário que existe atualmente, mas nesta tarefa não estamos sozinhos, as editoras nos auxiliam nas escolhas e a própria Secretaria da Educação disponibiliza avaliações sobre obras infanto-juvenis de qualidade. O importante é não forçar a “digestão”. Erudição de séculos passados, inversões complicadíssimas ou profundas reflexões filosóficas pode ser para nós um jantar de finas iguarias, mas para as quais o paladar da criança ainda não esteja pronto.
Quando o aluno termina o Ensino Fundamental II, precisa levar com ele a lembrança do prazer da leitura, dos momentos bons de debates calorosos sobre namoros, drogas, baladas, internet, futuro, romance, amizade. Sem cair, é claro, no vazio dos enredos medíocres ou da linguagem pobre, é preciso proporcionar ao jovem leitor, condições de começar a gostar de ler. Ele ainda não sabe exatamente do que seu espírito intelectual precisa para ser bem alimentado, mas terá prazer em buscar, na hora certa, se nós lhe dermos as pistas. Com a vantagem de, aí sim, estar pronto para navegar por mares nunca dantes navegados, refletir se ser ou não ser é a questão e até saber que tudo vale à pena se a alma não é pequena... e o momento não é forçado.
Raquel Ponce Batista – professora de português do Ensino Fundamental II
