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A Sibila e o Dilema

Por: Leo Misleh de Matos, 2ºano

O dilema era como um velho fantasma dinamarquês mergulhando todo seu espírito em dúvidas. O fantasma de Vilela eram aquelas cartas anônimas banhadas em veneno. Vilela temia que o amigo houvesse descoberto. Camilo havia rareado as visitas a sua casa. Vilela temia que Camilo houvesse descoberto que ele já sabia de toda a traição. Quando casara com Rita via nela uma dama formosa e inocente, e havia sido assim até a chegada daquelas cartas. Agora punha em jogo seu casamento com Rita e sua velha amizade de infância com Camilo.


Para ter certeza da suposta aventura, em uma quinta-feira de novembro de 1869, Vilela seguiu Rita até a rua da Guarda Velha, onde ela entrou em uma casa de janelas misteriosas. Seria lá que se encontrava o cúmplice adúltero? O medo pousou sobre os olhos de Vilela, sob os óculos de cristal, com aquelas asas que lhe abraçavam. Vilela recuou, mas a dúvida ainda lhe corroía.


Dias depois, decidiu conversar com Camilo e dirigir-se à velha casa. Andava armado. O medo não abrira outro vôo; pousou e ficou. No tílburi resolvera escrever um bilhete, que lhe saíra trêmulo pelos movimentos do carro, apesar da firmeza decisiva de sua mão: “Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora.” O tílburi parou. Suando frio, Vilela entrou na casa. Emudeceu surpreso ao descobrir que Rita viera a uma cartomante. E Camilo também passaria logo por aquela rua em direção ao Botafogo.


No interior da casa, a mulher, uma italiana de espírito agudo, impassível, o estudava com os olhos astutos, fixos. Aproximou-se lentamente de Vilela, paralisado pelas próprias questões. Tocou sua testa, com um único movimento de dedos finos. Vilela era religioso e não acreditava naquelas coisas. Rita costumava lhe traduzir Hamlet, em vulgar, com aquela voz antes doce e, agora, amarga: “Há muita coisa misteriosa e verdadeira neste mundo.” Sua lembrança quebrou-se pela voz da cigana:


- O senhor tem um grande susto. E busca uma verdade.


Tirou as cartas da gaveta e fez menção de pô-las na mesa. Vilela, assustado, mas como em encanto, a interrompeu, chamando-a de bruxa fraudulenta. Com um leve sorriso, a cartomante lhe disse de sua intenção de vingança. Brincava com ele e com suas crenças. Instigou-lhe a necessidade de revanche. O adultério era insulto sobre o sagrado matrimônio. Vilela já tinha a certeza que procurava. Inquieto, foi a uma das janelas fechadas e, pelas frestas, como pelo Destino, viu um quadro conhecido: Camilo vinha em um carro naquela direção.


Vilela deixou 20 mil-réis sobre as cartas da mesa, sob os olhos fulminantes da serpente. Fugiu para a rua. Na pressa, a arma caiu de seu bolso e disparou contra um cavalo de um tílburi, que caiu morto interditando a passagem. Escondido pelo caos e pela capa do trágico assassino retomou a pistola e fugiu em direção a sua casa. Em pouco tempo, Camilo atenderia suas palavras: “Vem já, já...”.


Como o Anjo da Morte, não tardou a chegar em casa e explicar a uma perplexa Rita que lhe perdoava, ainda a amava, mas teria de matar Camilo. Rita desesperou-se. Vilela havia descoberto. Ela pulou sobre seu pescoço, tentando tirar-lhe a arma. Um único disparo acidental acertou Rita, deixando-a morta e ensangüentada sobre o canapé. Um Vilela ajoelhado perante o corpo pedia perdão ao céu e à terra. Mal se ouviu a batida na porta, apareceu-lhe um Camilo confiante.


- Desculpa, não pude vir mais cedo. O que há?


Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas. Encaminhou o velho amigo a uma saleta. Camilo não pôde sufocar um grito de horror – ao fundo estava o cadáver da amada. Vilela pegou-o pela gola e com dois tiros de revólver fez-lhe paga a velha dívida de honra. Estirou Camilo morto no chão e repousou sobre o busto da Vênus desmistificada. Solvera o dilema e o amor a um só tempo.

Colégrio Ábaco
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