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Perseguição Mística

Por: Caíque Furlaneto Saraceni, 9º ano

_ O que ela está fazendo ali? – Pensou Vilela, com os olhos fixos em sua esposa que entrava na casa de uma cartomante. Respostas sem sentido voaram por seus pensamentos naquela manhã de 1869. Sabia que a esposa andava estranha e fria ultimamente, e quando começou a imaginar a razão de tamanha indiferença, deixou a insegurança tomar conta. Começou a persegui-la.

 

Depois da inesperada visita à cartomante, viu que a mulher parecia mais tranqüila. Desceu à rua e entrou em um lugar que era muito familiar a Vilela: a casa de seu mais velho amigo, Camilo. “O que Rita está fazendo na casa de Camilo?” Perguntou a si mesmo, torcendo as mãos em um ato de nervosismo durante bons dez minutos, tempo que levou sua esposa para sair de lá e ir em direção à sua casa. Ele resolveu dirigir-se ao escritório. Sentiu que trabalhar era o melhor remédio em uma situação como essas e que, talvez, poderia falar com Rita sobre aquilo à noite.

 

Quando chegou ao seu destino, sua secretária interrompeu-lhe em passos largos:

 

_ Senhor, chegou-lhe uma carta – disse ela estendendo-lhe o envelope.

 

Vilela apanhou a carta e, sem dizer nada, foi até sua sala. Fechou a porta. Quando leu o pequeno papel, escrito à mão, não pôde deter as lágrimas. “Rita e Camilo? Traindo-me?” Amassou as calúnias escritas no papel ferozmente, como se pudesse apagar a verdade. Sentia-se tonto. Não poderia ser. Só não poderia.

 

Alguns dias depois, cartas anônimas tornaram a aparecer. Vilela ainda perseguia Rita, mas não via nada de suspeito no comportamento da mulher. Ele ainda estava confuso, se recusando a acreditar nos fatos que ecoavam em sua mente. Cartas, cartas e mais cartas. “Poderia ser uma peça, uma brincadeira”, pensou ele. As dúvidas o corroeram. Lembrou-se da chave extra que Camilo havia dado a ele, há meses, caso algo acontecesse e o amigo precisasse entrar em sua casa dele com urgência. Não pensou duas vezes.

 

_ O que significa isso? – dizia Vilela a si mesmo, parado na sala de estar do amigo, que havia ido à igreja, rezar pela alma de sua mãe. 

 

_ Não pode ser! – ele repetia, segurando algumas cartas na mão direita e a chave extra na mão esquerda. Eram cartas de amor. Cartas vindas de Rita. Junto com as mesmas, estavam cartas do mesmo anônimo que, há tempos, vinha enchendo a cabeça de Vilela com o que, até o momento, ele julgava serem mentiras insólitas sobre uma aleivosia sem sentido. Pensou muito no que iria fazer. Muito, muito mesmo. Antes, estava inseguro com sua decisão, mas, agora, parecia certo.

 

Cerca de dois dias depois da revelação, Vilela chamou Rita à sala. Ela atendeu o pedido, sem saber que seria o último que atenderia em sua curta vida. O mesmo ocorreu com Camilo, que, mais cedo naquele mesmo dia, havia recebido um bilhete do viúvo que pedia ao rapaz que comparecesse imediatamente a sua residência. Quando ele chegou, foi carinhosamente recebido com dois tiros de revólver.

 

Vilela sentou-se ao sofá, confuso, mas orgulhoso. Podiam mexer com seus sentimentos, podiam mexer com seu dinheiro... A única coisa intocável para ele era sua honra. A dignidade da história ficou, desta vez, por conta da imoralidade.

Colégrio Ábaco
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